
Um estudo recente, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), aponta uma transformação significativa no tráfico de papagaios: as aves, antes mais associadas a capturas em áreas rurais para complementar a renda, agora são predominantemente traficadas em direção a regiões urbanas. A pesquisa analisou quase três décadas de apreensões no México, revelando que os centros de maior concentração populacional se tornaram o principal destino e motor desse comércio ilegal.
A metodologia do estudo, que analisou mais de 6 mil registros de apreensões entre 1997 e 2024, identificou também possíveis rotas de transporte e demonstrou que a distribuição geográfica do tráfico não é aleatória. Essa abordagem tem potencial para ser aplicada em outros países, como o Brasil, historicamente conhecido pela abundância dessas aves.
George Olah, pesquisador da Australian National University e um dos autores do estudo, explicou que a mudança representa uma reconfiguração do mercado. Inicialmente, a captura de aves poderia ser uma fonte secundária de renda para famílias em áreas rurais próximas a habitats naturais. Contudo, com o passar do tempo, a demanda crescente nos centros urbanos assumiu o papel principal.
“O motor desse mercado passou da necessidade econômica de sobrevivência para a procura de consumo em cidades mais populosas”, detalha Olah. A análise dos dados foi dividida em três períodos: 1997-2008, 2009-2019 e 2020-2024. No primeiro período, a pobreza nos estados mexicanos estava mais relacionada às apreensões, indicando captura local para subsistência.
A partir de 2009, essa ligação com a pobreza diminuiu, enquanto o tamanho da população local passou a ter maior correlação com os dados de apreensões. Esse resultado sugere que o tráfico se tornou mais voltado para regiões com um número maior de potenciais compradores, com grandes centros urbanos agindo como um “ímã” para o comércio ilegal de aves.
No Brasil, o tráfico ilegal de papagaios e araras representa uma grave ameaça a espécies já em risco de extinção, como a arara-azul-de-lear. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), essas aves estão entre os animais mais visados pelo tráfico internacional e nacional, que frequentemente retira ovos e filhotes da natureza para venda ilegal.
De acordo com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), as aves em geral figuram entre os animais mais afetados pelo tráfico no país, respondendo por mais de 60% dos animais traficados. A tendência observada no estudo mexicano, de urbanização do tráfico, pode refletir um padrão global, indicando a necessidade de estratégias de combate mais focadas nos centros de consumo.
