
Pesquisadores do Centro de Informações Toxicológicas (CIatox) da Unicamp identificaram pela primeira vez no mundo duas novas substâncias psicoativas em amostras de saliva de frequentadores de festas no estado de São Paulo. A descoberta, que integra um alerta do governo federal, aponta para o surgimento contínuo de compostos sintéticos no mercado ilícito de drogas. As substâncias identificadas foram a desclorocetamina (DCK) e a 2-fluorodesclorocetamina (2-FDCK), ambas consideradas análogas da cetamina, um anestésico com uso restrito.
A análise em fluido oral é crucial pois indica o consumo recente da substância, permitindo que a polícia e os órgãos de saúde monitorem o que está sendo consumido em tempo real. Em quatro amostras analisadas, a presença dessas drogas foi confirmada. Em dois dos casos, os usuários relataram ter consumido apenas substâncias conhecidas popularmente como “bala” ou “MD”, mas os exames toxicológicos revelaram a presença de cetamina e seus derivados, indicando adulteração ou venda de novas substâncias como se fossem outras mais conhecidas.
Diferentemente de metabólitos, a DCK e a 2-FDCK não são produzidas pelo organismo após o consumo de cetamina. Essa constatação sugere que os compostos já estavam presentes nas drogas consumidas, possivelmente em misturas ou adulterações comercializadas de forma ilegal. “No campo da pesquisa, sabemos que essas substâncias são sintetizadas com o objetivo de burlar listas de controle. Por isso, essas listas precisam ser constantemente atualizadas, já que novos compostos surgem com frequência”, explicou uma pesquisadora do CIatox.
O fluido oral é um indicador eficaz de consumo recente, permitindo afirmar com segurança que os indivíduos estavam sob o efeito da substância no momento da coleta. Embora as duas drogas já fossem conhecidas pela ciência e detectadas em outras amostras biológicas, sua identificação em saliva é inédita globalmente. O estudo da Unicamp destaca a dificuldade de rastrear e controlar novas drogas que aparecem constantemente no mercado.
Apesar de apresentarem efeitos semelhantes aos da cetamina, os riscos à saúde associados à DCK e 2-FDCK ainda são pouco compreendidos, com escassez de dados sobre potência e duração dos efeitos. Relatos internacionais, no entanto, já documentam casos graves de intoxicação, internações e fatalidades ligados ao uso da 2-FDCK. Efeitos adversos conhecidos incluem dissociação intensa, confusão mental, alterações perceptivas, hipertensão, taquicardia, agitação psicomotora, perda de consciência e comprometimento motor.


