
Livreiros ao redor do mundo relatam compras incomuns e em massa de livros antigos por empresas de IA, levantando suspeitas sobre o destino das obras. Investigações apontam para um plano de digitalização chamado ‘Projeto Panamá’.
Livreiros especializados em obras usadas na Espanha, Holanda e Austrália têm reportado um aumento expressivo e peculiar em pedidos de livros antigos vindos de empresas com sede no Canadá. Os pedidos, realizados em um curto intervalo de tempo e com custos de envio elevados, levantaram suspeitas de fraude e, posteriormente, de uma prática que pode envolver a destruição de exemplares para fins de treinamento de inteligência artificial.
Marçal Font, livreiro há 20 anos em Badalona, na Espanha, notou o padrão incomum em abril, quando sua loja, a Livraria Fénix, recebeu diversas encomendas idênticas. A situação se tornou ainda mais estranha quando os pedidos se repetiram, levando Font a investigar a origem e a intenção por trás das compras maciças, algo atípico no comércio de livros raros, onde a venda raramente ultrapassa um exemplar por cliente.
A suspeita se intensificou quando Font compartilhou suas preocupações com um amigo pesquisador de inteligência artificial, que havia notado padrões semelhantes em outros países. A investigação conjunta revelou que outros livreiros na Alemanha e Nova Zelândia também estavam recebendo pedidos similares, fortalecendo a hipótese de uma operação coordenada com um objetivo específico.
A apuração jornalística ligou essas compras suspeitas a um plano conhecido como “Projeto Panamá”. Este projeto, supostamente ligado a empresas de inteligência artificial, teria como objetivo a digitalização “destrutiva” de todos os livros do mundo. Um documento vazado de um processo judicial contra a empresa de IA Anthropic, que buscava encerrar uma ação coletiva de autores por uso indevido de obras, mencionou um plano para escanear livros sem o conhecimento público.
A estratégia por trás dessas aquisições maciças pode estar relacionada a decisões judiciais que permitem o uso de exemplares comprados legalmente para o treinamento de modelos de IA. Maximiliano Firtman, autor e professor de programação, que processou a Anthropic, explicou que a compra do livro confere à empresa o direito de utilizá-lo para esse fim, o que pode estar impulsionando a aquisição em larga escala de obras literárias.
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