
Levantamento aponta que 87% dos pacientes são diagnosticados com a doença nos estágios 3 e 4. Falta de rastreamento e sintomas silenciosos contribuem para o quadro, que eleva a letalidade.
Oito em cada dez pacientes com câncer de pulmão no Brasil descobrem a doença quando ela já se encontra em estágios avançados, de acordo com um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa realidade contribui para que o câncer de pulmão seja o tipo que mais causa mortes no país, com cerca de 31 mil óbitos anualmente.
A análise dos dados do Painel de Oncologia, que reúne informações do SUS, revela que 87% dos diagnósticos ocorrem quando a doença já atingiu os estágios três e quatro. Esses são os níveis mais graves, onde o tumor já se espalhou para outras partes do corpo ou invadiu estruturas e linfonodos próximos. O cirurgião torácico Erlon Ávila Carvalho destaca que a fragilidade dos pacientes em estágios avançados muitas vezes impede o início do tratamento, impactando diretamente na letalidade.
Especialistas apontam que o cenário preocupante se deve a alguns fatores cruciais. Primeiramente, a natureza silenciosa da doença, que progride sem manifestar sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Além disso, o câncer de pulmão é considerado um tipo agressivo. Um agravante significativo é a ausência de um programa de rastreamento para a doença no SUS, diferentemente de outros tipos de câncer.
Embora o Instituto Nacional de Câncer (Inca) esteja à frente de um estudo para avaliar a viabilidade de implementar um rastreamento no país, especialistas alertam para os desafios inerentes ao perfil da doença. O tabagismo continua sendo o principal fator de risco, com fumantes apresentando um risco até 30 vezes maior de desenvolver a doença em comparação com não fumantes, segundo o Inca.
Os dados analisados pela SBCO entre 2020 e 2025, com 49 mil registros de estadiamento para câncer de pulmão no SUS, mostram uma concentração de diagnósticos nos estágios mais graves. Apenas 3% dos casos foram detectados no estágio 0 (inicial), 4% no estágio 1 e 5,1% no estágio 2. Em contrapartida, 23,8% estavam no estágio 3 e impressionantes 64,1% no estágio 4, totalizando os 87% em fases avançadas.
A janela de oportunidade para tratamento se fecha rapidamente devido à ausência de sintomas nas fases iniciais. Um nódulo de dois centímetros, por exemplo, pode não gerar qualquer desconforto. Os primeiros sinais, como tosse e falta de ar, geralmente surgem perto do estágio 4 e podem ser confundidos com doenças pulmonares benignas, como a DPOC, ou atribuídos a outros fatores como idade e sedentarismo.


