
A produção agrícola mundial, impulsionada por tecnologia e expansão de países como Brasil e Rússia, conta com estoques recordes para mitigar os efeitos de um forte El Niño.
O sistema alimentar global apresenta maior resiliência para lidar com os impactos de um episódio severo de El Niño, graças a estoques de produtos agrícolas próximos de níveis recordes, avanços tecnológicos e o crescimento de grandes exportadores como Brasil e Rússia. Essas condições fortalecem a capacidade mundial de compensar eventuais perdas na produção agrícola decorrentes do fenômeno climático.
Desde a década de 1980, a produção agrícola mundial tem crescido acima do consumo e do aumento populacional, impulsionada pelo desenvolvimento de variedades de plantas mais produtivas, uso ampliado de fertilizantes e melhorias em irrigação e técnicas de proteção de lavouras. Esses fatores aumentaram a produtividade de culturas essenciais como arroz, trigo, milho e soja, permitindo a obtenção de rendimentos comercializáveis mesmo em períodos de seca, segundo análise de especialistas.
Apesar dos avanços, o fenômeno climático já começa a afetar o plantio em partes da Ásia, incluindo Índia e Sudeste Asiático, além da Austrália, com relatos de falta de umidade. A situação é agravada pela escassez de fertilizantes e diesel, intensificada pela guerra no Irã. A Índia enfrenta uma temporada de monções abaixo do esperado, enquanto a Austrália preocupa-se com o clima seco em suas regiões produtoras de trigo.
Cientistas preveem que o El Niño, já considerado forte, deverá intensificar-se entre o final de 2026 e o início de 2027. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, geralmente causa condições mais secas na Ásia e chuvas intensas nas Américas. Episódios anteriores, como os de 1997-1998 e 2015-2016, causaram redução na produção agrícola, escassez de alimentos, inflação e desaceleração econômica global.
Desta vez, a diferença reside na robustez da oferta. Estoques globais elevados de grãos, sementes mais resistentes à seca, previsões meteorológicas aprimoradas, agricultura de precisão e sistemas de irrigação mais eficientes criam uma rede de segurança contra perdas climáticas. A Índia, por exemplo, possui reservas de arroz que superam um ano de exportações globais, enquanto a China detém quase metade dos estoques mundiais de trigo, o que pode mitigar a dependência de importações em caso de quebra de safra em países como a Austrália.


