
Mulheres diagnosticadas com câncer de mama em Campinas estão denunciando longas filas de espera para iniciar o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atraso, que pode chegar a três meses, não cumpre o prazo legal estabelecido para o início das intervenções médicas após o diagnóstico. Essa situação ocorre em meio a um estrangulamento na rede municipal de saúde, onde hospitais de referência relatam superlotação e falta de vagas para novas pacientes oncológicas.
A lei federal determina que o sistema de saúde pública deve finalizar o diagnóstico em até 30 dias e iniciar o tratamento em no máximo 60 dias. No entanto, a realidade em Campinas é de um represamento que prejudica diretamente as chances de cura das pacientes. A oncologista Mary da Silva Thereza alerta que a cada quatro semanas de espera, o risco de mortalidade aumenta entre 10% e 13%, pois o tumor pode crescer, gerar metástases ou evoluir para quadros que exigem terapias mais agressivas.
O drama da espera é vivenciado por pacientes como Elisabete Turra, costureira diagnosticada com um tumor agressivo em setembro. Após passar por exames no Hospital da Mulher, ela foi informada de uma previsão de atendimento de pelo menos três meses. “O que eu queria era que se abrisse mais vagas pra atendermos a gente, pra que essa fila ande mais rápido, porque ficar nessa espera é angustiante, é desesperador”, relatou Elisabete, que registrou uma reclamação na ouvidoria da Rede Mário Gatti em busca do cumprimento da lei.
O problema se estende à etapa de diagnóstico. A conselheira municipal de saúde, Ivone Mendonça, aponta a falta de profissionais para analisar exames como um dos gargalos. Segundo ela, há mais de 13 mil mamografias em Campinas aguardando análise médica. A advogada especialista em direito à saúde, Thais Pedi, critica a falta de transparência na regulação de vagas e a burocracia, que podem atrasar em até quatro meses a inserção de um paciente no sistema de espera.
A Rede Mário Gatti informou que a paciente Elisabete Turra foi inserida no sistema de regulação em 3 de setembro. A rede admitiu uma redução temporária no atendimento de mastologia devido à saída de dois médicos, mas garantiu a recomposição da equipe com dois novos especialistas. A prefeitura também anunciou um mutirão de cirurgias oncológicas para o próximo mês, com previsão de 18 procedimentos em dois dias, além de medidas para ampliar a oferta de consultas e cirurgias.
Apesar das medidas anunciadas, o Executivo municipal não forneceu dados sobre as 13 mil mamografias sem laudo e o número total de pacientes na fila de espera por tratamento. O governo estadual, por sua vez, confirmou que o município gerencia os encaminhamentos, mas se comprometeu a disponibilizar vagas excepcionais na rede estadual até que o fluxo municipal seja regularizado.


