
Um macho de jacutinga surpreendeu pesquisadores ao viajar cerca de 30 quilômetros pela Mata Atlântica e retornar ao ponto onde foi solto um ano antes. A descoberta, feita com o auxílio de transmissores com GPS, faz parte das atualizações do Projeto Jacutinga, iniciativa que completou uma década de esforços para reintroduzir a espécie na Serra da Mantiqueira. A SAVE Brasil divulgou recentemente a soltura de mais oito aves em São Francisco Xavier (SP).
Desde 2016, o projeto já devolveu 82 jacutingas à natureza, um marco importante para a conservação. Paralelamente, a taxa de sobrevivência dos animais após serem liberados na Mata Atlântica apresentou uma melhora expressiva, saltando de cerca de 50% nos primeiros anos para aproximadamente 80% atualmente. Essa evolução é atribuída a aprimoramentos no treinamento e reabilitação das aves, que passam por um período de cerca de dois meses de preparação intensiva antes de ganharem a liberdade.
O treinamento abrange desde a busca por alimento e o reconhecimento de predadores até o desenvolvimento de comportamentos essenciais para a vida independente na floresta. “Uma jacutinga nascida sob cuidados humanos precisa estar preparada para muito mais do que simplesmente estar saudável para ser solta. Ela precisa desenvolver habilidades fundamentais para encontrar alimento, reconhecer ameaças e viver na floresta de forma independente”, destacou Alecsandra Tassoni, coordenadora do Projeto Jacutinga na SAVE Brasil. Essa preparação visa garantir que as aves estejam aptas a prosperar em seu habitat natural.
O uso de transmissores com GPS, implementado desde 2015, permitiu um acompanhamento mais detalhado dos trajetos das aves, revelando padrões de deslocamento até então desconhecidos. O macho em questão percorreu os 30 quilômetros em apenas quatro meses após sua soltura, e o retorno ao local de origem um ano depois foi considerado particularmente notável pelos pesquisadores. Essa tecnologia amplia a compreensão sobre como as jacutingas utilizam o ambiente e fornece dados cruciais para as estratégias de conservação.
Os dados de monitoramento também evidenciam a conectividade entre diferentes fragmentos da Mata Atlântica, com jacutingas reintroduzidas sendo avistadas em áreas como Monte Verde (MG). Atualmente, 32 aves estão sob acompanhamento contínuo, embora a vida útil limitada dos transmissores (cerca de um ano) apresente desafios para o rastreamento de longo prazo. Apesar de alguns registros de predação, o fim do sinal de transmissão não indica, necessariamente, o óbito do animal.
O principal objetivo do projeto a longo prazo é estabelecer uma população autossustentável de jacutingas na região, o que, segundo a SAVE Brasil, demandaria cerca de 200 indivíduos com distribuição equilibrada entre machos e fêmeas reprodutores. Novos estudos sobre os padrões de deslocamento da espécie poderão refinar essa estimativa. Registros de ninhos, ovos férteis e até um filhote avistado indicam progresso, mas a confirmação de nascimentos na natureza ainda é um objetivo em andamento.
