
Um estudo inovador conduzido no Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais, empregou o DNA extraído de moscas e mosquitos para detectar a presença de mamíferos na Mata Atlântica. A técnica, conhecida como iDNA (DNA derivado de invertebrados), permitiu a identificação de vestígios genéticos de animais que habitam a região, oferecendo uma nova ferramenta para o monitoramento da biodiversidade.
A pesquisa, publicada recentemente na revista científica European Journal of Wildlife Research, identificou 33 grupos taxonômicos de mamíferos silvestres, sendo 22 deles classificados até o nível de espécie. Entre os animais detectados estão espécies ameaçadas e de grande porte, como a onça-pintada (Panthera onca), a onça-parda (Puma concolor), o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus) e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), além de antas, tamanduás e diversos primatas.
O método iDNA funciona a partir da coleta de material genético de vertebrados que os insetos acumulam. Esses insetos podem obter o DNA ao se alimentarem de sangue, fezes ou ao entrarem em contato com carcaças, depositando esses vestígios em seus corpos. A análise subsequente desses fragmentos genéticos permite aos cientistas inferir a presença e a diversidade de animais na área estudada, sem a necessidade de observação direta ou captura.
Amostras foram coletadas em seis pontos do Parque Estadual do Rio Doce, uma área de aproximadamente 36 mil hectares que preserva um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica. As coletas ocorreram durante quatro dias nas estações chuvosa (fevereiro de 2023) e seca (julho de 2024). Mesmo com o curto período de amostragem, a análise genética identificou registros correspondentes a 56% das 55 espécies de mamíferos terrestres esperadas para a região.
Os pesquisadores observaram uma diferença de eficiência entre moscas e mosquitos na coleta de DNA. As moscas foram responsáveis pela detecção de 30 unidades taxonômicas, enquanto os mosquitos identificaram 18. Quinze registros foram obtidos exclusivamente por meio das moscas e três apenas pelos mosquitos, sugerindo que as moscas, com maior acesso a fezes e carcaças, capturam uma gama mais ampla de material genético.
A sazonalidade também influenciou os resultados, com a estação chuvosa registrando 22 unidades taxonômicas e a seca, 21. No entanto, a composição dos registros variou significativamente: vestígios de felinos foram encontrados apenas nas amostras coletadas durante o período chuvoso, enquanto a anta e a capivara foram detectadas unicamente na estação seca. Essas disparidades reforçam a importância de considerar diferentes períodos para levantamentos completos da fauna.
