
Campinas registrou a expedição de 1.868 medidas protetivas entre janeiro e agosto de 2026, volume que corresponde a uma média de sete por dia. Os dados, divulgados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), indicam um aumento de 18,2% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Este índice representa o maior patamar da série histórica das Varas de Violência Doméstica e Familiar na cidade, iniciada em 2018.
A advogada criminalista Erika Chioca Furlan, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, avalia que o aumento expressivo nas concessões de medidas protetivas não deve ser interpretado unicamente como um crescimento da violência. Para ela, os números também refletem um maior conhecimento das mulheres sobre os mecanismos legais de proteção disponíveis e um temor crescente de que situações de agressão possam escalar para feminicídio, levando a uma concessão mais cautelosa e rápida por parte das autoridades.
Erika Chioca Furlan pondera que a elevação das estatísticas de medidas protetivas não significa necessariamente um aumento proporcional de vítimas de violência. Ela argumenta que o que tem crescido é o número de notificações, uma vez que a violência contra a mulher foi historicamente marcada pela subnotificação. Com o acesso ampliado à informação sobre direitos e instrumentos legais, as vítimas estariam buscando ajuda com mais frequência.
Segundo a especialista, a medida protetiva funciona como uma resposta a um crime já tipificado, caracterizando uma intervenção de prevenção terciária. Ela defende que o foco principal das políticas públicas deve se voltar para a prevenção primária e secundária, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de situações de violência antes que elas ocorram. Isso envolve combater a disseminação de noções de posse e poder masculino sobre as mulheres.
Para Erika Furlan, é fundamental que haja investimentos contínuos em educação, conscientização e projetos que alcancem diversos setores da sociedade. Ela ressalta que, após a ocorrência da violência, as opções se limitam a estatísticas e números crescentes. A construção de uma cultura de prevenção, segundo ela, exige a participação ativa de escolas, universidades, empresas e organizações da sociedade civil.


