
O 53º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, um dos eventos mais tradicionais do gênero no mundo, teve que excluir 38 obras de um total de mais de 2 mil inscritas. A razão para a desclassificação foi a constatação, pela comissão julgadora, de que os trabalhos foram produzidos com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial (I.A.), o que contraria as normas estabelecidas no edital do concurso. Caricaturas e charges foram as categorias com maior número de participações que não atenderam às exigências da competição.
A medida teve como objetivo primordial assegurar a integridade do processo de seleção e valorizar a criação autoral dos artistas participantes. A presidente do evento, Synnöve Hilkner, destacou a importância da inclusão de um especialista em mídias sociais e inteligência artificial na composição do júri. Essa expertise foi fundamental para a interceptação antecipada dos arquivos em desacordo com as regras, protegendo assim o trabalho dos criadores que submeteram obras genuinamente autorais.
Adilson Ferreira, especialista em imagem com 25 anos de experiência, atuou como o principal responsável pela identificação das obras que infringiram o regulamento. Segundo ele, os softwares de inteligência artificial generativa deixam rastros digitais e padrões de identificação específicos nas imagens. A análise desses elementos permitiu detectar as artes que foram criadas por algoritmos, em vez de serem fruto do processo criativo humano.
O processo de verificação para a desclassificação das obras suspeitas foi estruturado em três etapas principais, desenvolvidas por Ferreira. A primeira consistiu na auditoria do código-fonte dos arquivos, utilizando softwares especializados em computação gráfica para rastrear metadados e identificar o uso de ferramentas algorítmicas. Aproximadamente 25 das 38 obras foram detectadas nesta fase inicial.
A segunda etapa envolveu uma análise visual detalhada, focada na identificação de incongruências em elementos de fundo das imagens. Ferreira explicou que, embora a inteligência artificial tenha avançado na representação de elementos principais, ainda apresenta falhas e distorções em detalhes secundários. Essa observação minuciosa permitiu identificar padrões visuais característicos de geração por máquina, mesmo quando o código não apresentava indícios imediatos.
Em casos onde ainda persistiam dúvidas sobre a autoria das obras, uma terceira fase de investigação foi realizada. Esta etapa consistiu em analisar o histórico público dos participantes, buscando verificar a consistência de suas produções artísticas. A ausência de um portfólio robusto ou a presença de atividades incomuns em perfis online também serviram como indicativos para aprofundar a análise e confirmar a irregularidade.


