
A escassez de frutos leva os macacos-prego (Sapajus libidinosus) a intensificarem a caça de pequenos vertebrados, como lagartos, roedores, aves, serpentes e marsupiais. A descoberta faz parte de um estudo publicado na revista científica PLOS One, que monitorou por 45 meses dois grupos desses primatas em uma fazenda no Piauí. Esta investigação representa o registro mais extenso sobre a predação de vertebrados por essa espécie.
Durante o período de observação, que totalizou 5.093 horas, foram documentados 446 eventos de consumo de vertebrados. A taxa média observada foi de aproximadamente 6,34 episódios de predação a cada 100 horas de acompanhamento. A análise de 281 desses eventos revelou que as presas mais comuns incluíam lagartos (123), roedores (80), aves (34, incluindo ovos e filhotes), marsupiais (15) e serpentes (12). O estudo observou o comportamento em indivíduos de ambos os sexos e de diferentes faixas etárias, indicando que se trata de uma prática habitual nos grupos estudados.
Um dos principais achados da pesquisa foi a clara correlação negativa entre a disponibilidade de frutos e a frequência de predação de vertebrados. Em períodos onde a oferta de frutos era menor, o consumo de animais aumentava significativamente. Em contrapartida, a quantidade de insetos disponíveis não mostrou uma ligação estatisticamente relevante com a taxa geral de predação, sugerindo que os vertebrados são uma fonte de alimento mais impactante em momentos de restrição de frutas.
Patrícia Izar, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coautora do estudo, explicou que os macacos-prego não possuem uma dieta especializada, complementando seu cardápio com frutos, folhas, flores, invertebrados e vertebrados. Os pequenos animais serviram como uma importante fonte de proteína e gordura, especialmente quando outros recursos alimentares se tornam menos acessíveis.
A pesquisa sugere que a variação na disponibilidade de frutos de palmeiras, que são ricos em lipídios e proteínas, pode ser um fator chave nessa dinâmica. Os frutos dessas palmeiras são abundantes na estação seca, mas sua quantidade diminui entre dezembro e fevereiro, coincidindo com o período chuvoso e o aumento do consumo de vertebrados pelos macacos-prego.
O estudo também detalhou as partes dos animais consumidas. Aves eram frequentemente comidas inteiras, com preferência por cérebro e vísceras quando não eram consumidas por completo. Entre mamíferos, patas e cauda eram partes comuns, assim como olhos em alguns casos. Lagartos e serpentes também eram consumidos, com os pesquisadores observando o descarte da cabeça de cobras e a ingestão do restante do corpo.


