
A eficácia da vacinação, que tornou doenças como sarampo e poliomielite raras, paradoxalmente diminui a percepção de risco. Isso gera desafios para a manutenção das coberturas vacinais e o controle de surtos.
A efetividade das vacinas na erradicação ou controle de doenças infecciosas, como sarampo, poliomielite e difteria, criou um paradoxo: a redução da percepção de risco entre a população. A ausência de contato direto com enfermidades que já foram ameaças concretas à saúde pode dificultar a compreensão da necessidade de imunização, especialmente quando não há histórico familiar de casos, sequelas ou mortes.
Essa diminuição na percepção de perigo leva a uma menor urgência em buscar a proteção. Especialistas apontam que a percepção de risco é um fator crucial para a adesão às campanhas de vacinação. Quando as doenças não são mais visíveis no cotidiano, a motivação para se vacinar tende a cair, apesar da eficácia comprovada das vacinas em prevenir tais enfermidades.
O desafio para as políticas de imunização é, portanto, manter a confiança e a adesão vacinal em um cenário onde as doenças se tornaram distantes. Convencer as novas gerações sobre a gravidade de infecções que nunca presenciaram é uma tarefa complexa, especialmente diante da disseminação de desinformação e da politização do tema da vacinação.
O retorno do sarampo no Brasil ilustra essa problemática. Após obter a certificação de eliminação em 2016, o país viu a doença reaparecer a partir de 2018, coincidindo com a queda na cobertura vacinal. A perda da certificação em 2019 e os milhares de casos registrados nos anos seguintes demonstram a fragilidade dessa conquista sem a manutenção da imunização.
Entre 2018 e 2022, o Brasil contabilizou mais de 39,8 mil casos de sarampo. Embora os números tenham diminuído drasticamente em 2022 e 2023, com poucos registros em 2024 e 2025, a queda na vacinação é preocupante. Dados do Ministério da Saúde indicam uma redução significativa na adesão à vacina tríplice viral desde 2015.
Manter a credibilidade em uma ferramenta cuja principal prova de sucesso é justamente a ausência da doença é o cerne da questão. Essa situação exige um esforço contínuo de comunicação e educação para reforçar a importância da vacinação como um escudo coletivo contra ameaças que podem ressurgir a qualquer momento.


