
Um curativo líquido biodegradável, desenvolvido a partir da cana-de-açúcar, foi criado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A solução forma uma película transparente sobre feridas, sendo gradualmente absorvida pelo organismo durante o processo de recuperação. A tecnologia representa uma alternativa inovadora aos métodos tradicionais como gazes e ataduras, com potencial para reduzir significativamente a geração de resíduos.
A aplicação do curativo líquido pode ser feita diretamente na pele, por meio de spray ou de um dispositivo portátil. Estudos pré-clínicos sugerem que o produto pode até mesmo reduzir pela metade o tempo necessário para a cicatrização quando comparado aos curativos convencionais. A formulação é atóxica e biodegradável, tornando-a compatível com o uso em saúde humana e animal.
O desenvolvimento da tecnologia começou com pesquisas voltadas ao aproveitamento da cana-de-açúcar para a produção de materiais médicos. Através de processos de fermentação, o açúcar da cana é transformado em ácido lático, uma substância reconhecida por sua compatibilidade com o corpo humano. A equipe responsável pela criação é composta por Rubens Maciel Filho, André Luiz Jardini Munhoz, Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon e Ana Flávia Pattaro.
A química Ana Flávia Pattaro explicou que o material permanece na pele durante a cicatrização e, posteriormente, é absorvido pelo organismo, apresentando resultados satisfatórios na recuperação dos tecidos. Segundo ela, o formato da cicatrização obtido com o novo curativo é adequado e possui todas as características necessárias para uma boa recuperação tecidual.
O diferencial da invenção reside na combinação de um polímero biodegradável com um sistema de solventes de origem renovável e não tóxicos. Essa composição permite a transformação do material em líquido sem comprometer a segurança para aplicação direta na pele. O curativo forma um filme inteligente que atua como barreira contra agentes infecciosos e acelera o processo de cicatrização.
Além de eliminar a necessidade de gazes e ataduras, a película transparente é resistente à água e pode ser usada em áreas de articulação, como joelhos e cotovelos, permitindo o acompanhamento visual da ferida. A tecnologia também minimiza o risco de contaminação cruzada durante a troca de curativos, uma vez que não exige cortes ou remoções frequentes. A absorção pelo organismo durante a cicatrização também contribui para a diminuição do lixo hospitalar.
A tecnologia já possui um pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com titularidade compartilhada entre a Dermbio Biotech, empresa originada da Unicamp, e a própria universidade. A próxima etapa envolve os procedimentos regulatórios necessários para a realização de testes em pacientes.
