
Moradores de Valinhos, no interior de São Paulo, enfrentam uma espera de 17 anos para poder construir em lotes adquiridos em um empreendimento que se revelou irregular. A área, conhecida como loteamento Terras de Viena e situada no bairro Roncaglia, apresenta pendências documentais significativas com o governo estadual e é alvo de investigações do Ministério Público e da Polícia Civil, sob suspeita de estelionato. O caso afeta a expectativa de construção de centenas de famílias que investiram seus recursos em propriedades que não podem ser utilizadas.
O terreno em questão, com mais de 87 mil metros quadrados, deveria comportar no máximo 93 lotes, mas a denúncia aponta a venda de quase 140 cotas. Enquanto o Ministério Público estima um prejuízo de R$ 10 milhões para os cofres públicos e vítimas, os compradores calculam perdas financeiras que podem ultrapassar os R$ 26 milhões. A situação gerou frustração e sentimento de lesão entre os adquirentes, que planejavam o futuro e foram enganados por promessas de investimento seguro.
A dificuldade em construir se estende por anos, afetando diversas famílias que acreditavam na legalidade do negócio. Fabiana Trevisan relatou que seu pai e sogro compraram lotes entre 2012 e 2015, e que o registro em cartório deu uma falsa sensação de segurança. Seu sogro, Sétimo Baiochi, aposentado, expressou o sentimento de ter seu trabalho de uma vida inteira e seus planos de um futuro melhor frustrados por um golpe. A aposentada Helena Maria Pedro informou ter investido R$ 65 mil, valor considerável de sua aposentadoria, em quatro cotas adquiridas entre 2009 e 2019.
O caso também atraiu moradores da capital paulista em busca de tranquilidade. Eliana Stringhini e seu marido, que decidiram deixar São Paulo em 2021 com a promessa de início das obras, viram os prazos serem constantemente adiados. Eles admitiram não imaginar que se envolveriam em um golpe imobiliário de tamanha dimensão, evidenciando a amplitude da fraude.
O Ministério Público move uma ação judicial pública com cerca de 40 vítimas envolvidas, buscando o ressarcimento dos prejuízos. O promotor Felipe Buratto destacou a grave violação dos direitos do consumidor, com os réus prometendo um loteamento sem possuir a devida autorização ou estudos preliminares. A denúncia do MP responsabiliza cinco pessoas físicas e duas empresas, incluindo a JCC Gestão e Soluções em Negócios e a Roncaglia Empreendimentos Imobiliários, além de proprietários, administradores e corretores envolvidos nas vendas.
Atualmente, o terreno está com mato alto e uma placa proíbe novas vendas, alertando sobre a necessidade de aprovação. A Prefeitura de Valinhos informou que o loteamento depende de adequações urbanísticas e ambientais solicitadas pelo Estado desde 2009. A Polícia Civil já encaminhou um inquérito de estelionato ao Poder Judiciário em agosto e iniciou uma nova investigação com base em denúncias recentes, demonstrando a continuidade das apurações sobre o esquema.
