
A aranha-de-alçapão desenvolveu uma tática de caça única, baseada na camuflagem e em um bote certeiro a partir de seu esconderijo no solo. O aracnídeo constrói um túnel com uma entrada que se mimetiza perfeitamente com o ambiente, formando um alçapão quase invisível. Ao detectar a aproximação de uma presa por meio de vibrações, a aranha emerge rapidamente para capturá-la.
O comportamento foi meticulosamente documentado em Alta Floresta (MT) pela bióloga Priscilla Diniz, com o apoio do biólogo Rafael Ferraz. A dupla dedicou diversas noites para conseguir registrar em vídeo essa estratégia, que é raramente observada devido aos hábitos noturnos e à reclusão do animal em sua toca. A aranha-de-alçapão passa a maior parte de sua vida escondida, tornando o registro desse momento uma conquista significativa.
A construção do refúgio envolve um trabalho minucioso de engenharia natural. A aranha escava um túnel, cujas dimensões podem variar de 10 a 40 centímetros de profundidade em exemplares adultos, dependendo de fatores como idade, espécie e tipo de solo. As paredes internas são revestidas com seda produzida pela própria aranha, misturada a detritos vegetais e partículas do solo, criando uma estrutura impermeável e estável.
O grande diferencial da armadilha é a tampa articulada, construída com seda, folhas e galhos, que se funde ao leito da floresta. Fios de seda finos, esticados na parte externa, funcionam como um sistema de alerta, transmitindo qualquer vibração diretamente para a aranha no interior do túnel. Essa sensibilidade permite que o aracnídeo antecipe a chegada de potenciais presas.
Com visão limitada, a aranha-de-alçapão depende de estímulos táteis e vibratórios para localizar suas vítimas. A estrutura da toca, aliada a pelos sensoriais nas pernas chamados tricobótrios, amplifica as vibrações do solo, que são captadas com precisão. A gravação do comportamento exigiu extremo cuidado, especialmente com a iluminação, para não assustar o animal e permitir o registro de suas ações.
A caça se concretiza com um bote surpreendentemente rápido. A aranha aguarda no interior de sua toca e, ao sentir a vibração, abre a tampa abruptamente, agarra a presa com suas quelíceras, pernas e pedipalpos, e a arrasta para dentro. O cardápio inclui insetos como grilos e besouros, outros aracnídeos e até pequenos vertebrados como lagartixas e sapos, que são rapidamente paralisados por seu veneno.


